E por isso o grito.
quarta-feira, 17 de outubro de 2012 | Opine aqui

"Oh, mirror in the sky, what is love?"
Fleetwood Mac 

porque nisso tem o início, o fim e aí o meio e tudo que aconteceu e tudo que eu te fiz e tudo que você me fez e todos os desencontros desse meio tempo que nos trouxeram a um inevitável e fatídico agora. um agora que prescinde de uma morte em tudo para talvez um ressurreição próxima e abrasadora que possa, como este cristo que tanto cito sem acreditar, destruir o templo e reconstruí-lo em três dias, que foi sempre minha esperança. desconstruir-nos e reconstruir a nós dois rápido e tão perfeitamente quanto antes, onde tudo era mais fácil e quem sabe sem mágoas (constantes) que nos perseguem agora entre as poucas memórias de alguns sorrisos bobos.
a nossa vida prescinde da morte e o nosso espírito da ressurreição em um. e por isso o grito, por isso a sentença se anuncia bruta e breve, logo ali em frente a execução esperando ser "acontecida". a execução fatídica que há de ser feita por mim ou por ti para o fim de todos os teus males e de todos os meus males, amém.
uma execução da alma nossa e da nossa relação que não deixará ressentimentos, um corte ao cordão umbilical que nos une para que enfim se possa viver independente, dono do próprio destino, à mercê do outro: algo que não sou há muito. precisamos do corte para aí então revivermos independentes e talvez mais próximos pela própria independência construída com mais um final em nós mesmos.
me reconforta a ilusão de pensar que talvez tu tenhas mesmo percebido esse independência necessárias em nós dois e por isso mesmo tenha me matado em ti há algum tempo e por isso mesmo pareças tão solto na busca de outros recantos tantos tão separados de mim.
chegou a minha vez, a hora da estrela, preciso de uma morte tua, já anunciada ao primeiro ruir desta "gestação" ruim que tens me sido. e não sei como te matar por dentro sem te matar por fora, para que meus olhos vejam nos teus olhos nus de todo sentimento, um último relance de tudo aquilo que construímos e ruiu depois de tanto tempo: o nosso templo. preciso da destruição final do templo na tua face para a minha reconstrução em três dias. e por isso o grito.
e por isso torno às ações concretas e sinto quente a força em minha mão ao segurar o bastão que se estende agora como extensão de meu braço nu. o foco dos meus olhos desvairados vai para tuas costas, tua nuca, no ponto exato onde preciso acertar apenas uma vez para destruir tudo isso. um momento de hesitação antes de levantar o braço e me vem a memória da breve ressurreição em vida e de tudo que um dia foi bom. e então levanto o braço e chamo teu nome para que te vires e eu possa ver a última luz varar teus olhos. a queda acontece um milhar de vezes na minha mente e te acerto. e te destruo e te quebro em cacos tão pequenos quanto os grãos de poeira que se espalham por todo o ar.
e neste instante me abana a loucura, como uma companheira, a me encarar, abrindo a mão, abrindo o jogo e me mostrando que não há ressurreição em mim, que nunca houve e que agora não passo de um templo vazio, "um templo sem deus". o pavor me invade a alma junto às partículas de pó que me invadem os pulmões e que alguns momentos atrás foram tu mesmo:
e por isso o grito.


Seja o que for
"Onde queres o ato, eu sou o espírito e onde queres ternura, eu sou tesão. Onde queres o livre, decassílabo e onde buscas o anjo, sou mulher. Onde queres prazer, sou o que dói e onde queres tortura, mansidão. Onde queres um lar, revolução e onde queres bandido, sou herói" Caetano

O blog
Para Jéssica,
porque "o que obviamente não presta
sempre me interessou".

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Soneto de Fidelidade

"De tudo ao meu amor serei atento
Antes, e com tal zelo, e sempre, e tanto
Que mesmo em face do maior encanto
Dele se encante mais meu pensamento.

Quero vivê-lo em cada vão momento
E em seu louvor hei de espalhar meu canto
E rir meu riso e derramar meu pranto
Ao seu pesar ou seu contentamento.

E assim, quando mais tarde me procure
Quem sabe a morte, angústia de quem vive
Quem sabe a solidão, fim de quem ama

Eu possa dizer do amor (que tive):
Que não seja imortal, posto que é chama
Mas que seja infinito enquanto dure."