Carta Sem Destino
segunda-feira, 29 de agosto de 2011 | Opine aqui

PARA LER AO SOM DE "SI TU VOIS MA MÈRE" DE SIDNEY BECHET
"Let's run away together you and me
Forever we'd be free
Free to spend our whole lives running
From people who would be
The death of you and me
'Cause I can feel the storm clouds
Sucking up my soul"
NOEL GALLAGHER

Tenho pensado um tanto de coisas antes de dormir, muitas coisas mesmo, talvez seja a saudade entrando fundo, me corroendo, pelo menos me faz pensar né? Coisas como: que você é destes arrependimentos que batem no meio da noite depois de tantas carreiras & sexo & solidão refinados, elegantes, por sobre a cama king size com colchão de molas. Você é o que falta ao lado, na cama king size, no quarto iluminado pela luz neon da loja ao lado, você lembra? Não deve lembrar, eu não lembraria, já faz tanto tempo. E mesmo assim você me vem no meio da noite buscar na memória o arrependimento por ter deixado-te partir. Esta memória trapaceira de tantos erros e acertos quanto posso contar. Você volta para os lençóis, o quarto iluminado de vermelho e o jazz instrumental ao fundo, Sidney Bechet, baby. Você sempre volta. E é tanta solidão quando eu lembro que tudo isso se perdeu, que tudo isso é passado, que nunca mais, não, nunca mais. É tanto arrependimento. Daí levanto mesmo que seja tarde, mesmo que tenha que trabalhar no outro dia, pego o disco do Sidney Bechet e começo a escrever uma carta pra ti ou pra Clarice contando desta tal solidão medonha, deste medo de morrer só que eu sinto cada vez mais. Quer dizer, já tenho quase quarenta anos e você foi a coisa mais importante que me aconteceu, sabe, mas acabou, tudo bem, só que desde que acabou, e olha que já faz três, quatro anos, eu tenho sentido esta solidão horrível, de-vas-ta-do-ra, se aproximando cada vez mais do coração apertado, selvagem (perto do coração selvagem), lembrando que eu estou ficando velho, estou ficando só, para sempre. Claro que tem sempre uma aqui e outra ali, você sabe mais do que ninguém como eu sei conquistar uma mulher, mas é que estas que vêm aqui no apartamento são apenas as tais intelectualóides maravilhadas com os meus livros de contos, meu prêmio Jabuti, e essas coisa de dar por admiração me enche o saco pra caralho. Não consigo imaginar o que elas pensam vindo aqui e dando para o profíquo e (não tão) moralizante escritor dos contos de amor dos quais elas leem trechos em voz alta nas suas faculdades pagas de letras e/ou jornalismo. Quer dizer, eu nunca daria pro Borges só porque sou fã dele, nunca comeria a Clarice Lispector ou a Lygia Fagundes Telles só porque amo o que elas escrevem, entende? Não consigo me imaginar na situação delas e isto me alucina. Aí rola um sexo sem amor e sem sentido. Elas vão embora no outro dia desapontadas por não terem se tornado as tão bonitas e jovens amantes dos famoso & prestigiado escritor gaúcho bla bla bla. Mal elas, ou qualquer um, imaginam como eu sinto a tua falta, no lugar ao lado na cama, nas sessões de cinema. Fellini não tem sentido nenhum sem você, não que tivesse contigo, quando íamos ao cinema só para rir dos olhares intrigados das outras pessoas que não entendiam nada, lembra? Porra, lembro de uma porção de coisas, uma porção de noites e uma porção de porres. Me dá uma saudade, uma saudade de ter tudo isso de novo, não precisava ser contigo. Com qualquer uma. Só queria ter algo com sentimento, ler mil livros emprestados, emprestar mil livros. Quero banalidades, rotinas, saudade no final do dia, saudade boa - não esta que estou sentindo, amarga e envelhecida - saudade com certeza de amanhã, com telefonema durante a madrugada apenas para troca de 'eu te amo'. Clichê, mas indispensável. Saudade, tanta saudade, querida. Saudade da Audrey Hepburn, do Godard, de todos estes que víamos juntos sempre. Saudade do amor, faz tempo que ele não dá as caras. Sim, sim, saudade de ti, mas nem é tanto tua, não me leve à mal, acho que sinto mais falta do que tínhamos do que de ti. Não sei. Tomei um horror de comprimidos e cheirei duas carreiras antes de deitar, talvez não esteja tão sagaz & eloquente como de praxe. Talvez esteja reclamando como uma menininha chata e mimada, mas preciso desabafar esta saudade, esta solidão. Este silêncio oco dentro de mim. Louco pra sair. Louco pelo grito. E você sabem bem, já disse muitas e muitas vezes, que escrever é minha forma de gritar, de afugentar este silêncio de sempre de dentro de mim. De esquecer de tudo que está ocorrendo por um momento e fingir, fingir. "O poeta é um fingidor". Olhe bem para mim, veja só, o tão renomado & culto escritor citando Fernando Pessoa, estou parecendo aquelas meninas desinteressantes que vêm aqui só pra me dar, o próximo passo seria citar Caio Fernando Abreu e me igualar aos adolescentes pseudo-culturais que nunca leram um dos seus livros mas se dizem fãs incondicionais dele. Vi num lugar qualquer uma frase que define bem essa geração sem futuro: "você não é profundo, apenas tem acesso à internet", ah apenas se eles soubessem dessa solidão pela frente, talvez citassem uma frase do Pessoa. Mas é tudo bobagem, não é? Discutir adolescentes e suas ideologias perdidas não leva a nada. Vamos, vamos esquecer, vamos esquecer por um momento que tudo isto existe, vamos cuidar dos nossos problemas, limpar a casa. Vamos não, não no coletivo, e sim, vou. Vou esquecer os problemas e limpar a casa, porque você nem está mais aqui, porque é tudo tão vazio, porque estou tão só, preciso limpar a casa, esquecer, deixar ir, me apaixonar. Talvez por uma descompromissada (e desinteressante) estudante de letras quase vinte anos mais nova e talvez sair na Caras. Escritor sai nessas coisas? Mandarei escrever lá, bem grande "FODA-SE A SOCIEDADE" e adotarei todo um novo estereótipo de revolucionário contra o sistema, estilo Chico Buarque nos anos 70, quem sabe até aqueles marmanjos pseudo-intelectuais joguem fora suas camisetas do Che Guevarra e troquem por imagens minhas. Seria lindo, não? Talvez os homens viessem agora também me procurar, não por sexo, obviamente, mas por conselhos, por ideologoias. Pena que eles não sabem, que ninguém sabe além de você, que não tenho ideologia nenhuma. Que eu sou imoral, ilegal e engordo, ou iéa beiben. Mas talvez eu nem faça nada isso, de namorar uma menina vinte anos mais nova, talvez eu continue só, faz bem para a minha escrita. Acredito que só escreverei bem enquanto tiver alguma coisa faltando, alguma coisa perdida que me separe do que é normal. Talvez seja mesmo a solidão. Nem sei, não faço mais ideia de nada. Mas enfim, depois de talvez ter te cansado com essa choradeira melodramática, me cansei. Vou tomar qualquer sedativo (talvez em excesso) e dormir (talvez para sempre), quem sabe eu sonhe alguma coisa bem bonita. Me deseje sorte, me escreva, por favor. Sinto tanta falta, de tudo.
Para sempre teu,


Sem Título nº 3
domingo, 7 de agosto de 2011 | Opine aqui

"I'm sure
You hate to hear
That I adore you, dear"
COLE PORTER

Escuta aqui guri, olha pra mim, para de uma vez por todas de dizer que a vida é bela, que é bonito viver, olhar tudo como se fosse a última vez e tudo mais. Não é. Não me diz mais nada porque tu nem teve tempo de desistir ainda, tu é tão novo que nem sabe como o tempo se instala feito reumatismo em nós e dói, como o amor corrói o coração. Sabe aquela coisa funda suja que eu vivo dizendo que sofro por ela, aquilo é amor, boy, nada dessa coisa de filme de beijo debaixo da chuva e sorrisos no meio do nada. Amor gosta de entrar em todos os espaços do corpo, amor gosta de possuir, olhar, sentir com intensidade. Amor dói menino. Por isso não venha me falar de como tudo é lindo, de como a vida é bela, de como não dói. Dói sim, bem fundo no peito, nas mãos, no meio das pernas. Olha pra mim, não diga que me ama, entendeu? Não me peça pra te amar, não, vamos ficar só aqui ouvindo esse disco antigo, tomando essa vodka que tu trouxe, cheirando o pouco de coca que eu ainda tenho em casa, mas não vamos amar. Não misture sexo e coração. Não te amo, querido. Se quiser pode abrir a porta e partir. Todas aquelas vezes foram por falta de amor, e não o contrário. Puro desejo. Você é tão bonito, tão moço, tão ingênuo. Não precisa ter medo disso tudo que eu digo, porque é verdade, mais cedo ou mais tarde tu descobre chorando em um canto qualquer talvez por mim, talvez por aquele teu colega, qual o nome dele mesmo? Ah, sim, Paulo, talvez tu descubra o amor pensando no Paulo, sim, como tu queria ele perto o tempo todo, como tu sente ciúme vendo ele no meio dos outros, como no banho ele é todo teu e tu é dele . Ah, não me venha com isso. Sei que tu não me ama guri, não precisa se envergonhar, quem iria pensar em mim no banho e sentir-me seu? Não tu, com 20 anos ainda e eu já nos 30, como uma década nos muda né? Quando tinha a tua idade eu era igual a ti, olha o bagaço que eu virei. Quando tu descobrir que o amor dói e quiser chorar qualquer coisa gritando o nome dele tá aqui um ombro amigo. Vem aqui em casa que eu te faço aquele chá de marcelas que eu colhi nas manhãs da semana santa e tu te acalma. Também não é assim, né. De vez em quando acalma. O coração. Aí que a gente ri e deixa dessa bobagem toda de ser profundo ouvindo música triste. Aí a gente sai pela noite, qualquer coisa sem compromisso vale. Por isso que a noite é tão mais cheia de jovens, porque eles ainda não descobriram como dói, eles só conhecem essa coisa de sorrir. Agente já sabe que dói e que não adianta, continua mesmo que acalme e continuará para sempre. "Assim é, foi, será, dói aqui nas costas de tanto dormir e noutro lugar também, mas forte ainda, nem sei bem onde".


Seja o que for
"Onde queres o ato, eu sou o espírito e onde queres ternura, eu sou tesão. Onde queres o livre, decassílabo e onde buscas o anjo, sou mulher. Onde queres prazer, sou o que dói e onde queres tortura, mansidão. Onde queres um lar, revolução e onde queres bandido, sou herói" Caetano

O blog
Para Jéssica,
porque "o que obviamente não presta
sempre me interessou".

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Soneto de Fidelidade

"De tudo ao meu amor serei atento
Antes, e com tal zelo, e sempre, e tanto
Que mesmo em face do maior encanto
Dele se encante mais meu pensamento.

Quero vivê-lo em cada vão momento
E em seu louvor hei de espalhar meu canto
E rir meu riso e derramar meu pranto
Ao seu pesar ou seu contentamento.

E assim, quando mais tarde me procure
Quem sabe a morte, angústia de quem vive
Quem sabe a solidão, fim de quem ama

Eu possa dizer do amor (que tive):
Que não seja imortal, posto que é chama
Mas que seja infinito enquanto dure."