A fumaça do cigarro
terça-feira, 24 de março de 2009 | Opine aqui
Os dedos manchados pela nicotina, os olhos vagos, entre as mãos um cigarro, o copo já estava vazio. O vazio da mente imitava o copo e o sem-razão se seguia.
O clichê de escrever sobre amores continuava em sua mente, não só escrevê-los, mas de fato vivê-los. E amar desesperadamante. Como aconteceu.
As noite infinitas com seu rosto perto do dela, com suas mãos sobre as mãos dela, com olhos nos olhos, lábios nos lábios e eternas paixões. O amor vivido, vivído não ajudou em nada, ajudou-o a morrer lentamente, de infelicidade, morrer de amor. Aos poucos, assim como a areia se esvai. E assim ele foi indo. Se esvaindo.
E então mais uma tragada do cigarro, já não servia, mais um gole do conhaque, já na cabia. Seu peito e sua dor tomavam tudo. Tudo era eternamente doloroso como amar. E não-ser-amado era pior.
Deitou-se sob as estrelas que pareciam cair do céu, girar, pegar fogo e morrer. Deixou-se cair e deu uma tragada no cigarro. Viu a fumaça se esvair.
Se foi, se foi. A fumaça se foi.
E só restou ele, o copo, o cigarro.
E a dor.


Pra não dizer que não falei de flores
quinta-feira, 12 de março de 2009 | Opine aqui
Recordações do que nunca existiu, nunca passou do papel, recordações de um fim que estava próximo e a gente nem sabia, recordações de uma vida, recordações. Memórias.
E quem ficava se esvaia, como a areia que se esvai entre nossos dedos quando a pegamos na praia, como os dias ensolarados que passávamos lado a lado, como pessoas normais. Como o dia que se torna noite, como nós.
E tudo se esvaiu até as memórias deles, do tempo que foi bom, que nunca voltará, que nunca mais será. Sentir não seria mais possível, agora é proíbido sentir, é proíbido sofrer, é proibido viver. Mas viver é que não queremos, quermos lutar. Lutar por algo, por alguém, e por nós.
E pra não dizerem que não falei de coisa belas eu falo de nós, assim, singelamente nós, quatro amigos, quatro sorrisos, que se esvairam quando ele chegou, e será que se lambrama do que fomos, será que eles três se lembram que um dia nos gostamos e nos amamamos. E que nos lançávamos ao mar, ao sol, a luz de um clarão de fim de dia. Que nos viamos nos espelhos das vitrines e nos viamos como um só. Pra não dizer que não falei de flores, falei de nós.
E o remorso de deixá-los continua intragável, uma bebida amarga. Essa memória esvaída e infinita de momentos felizes, momnetos infinitos. Na imensidão de nós.
Depois de nos esvairmos esparsos nas noites eternas queremos reviver, ressentir, repensar. Amar, a-mar, ao-mar.
Queremos re-lutar.


Faz parte do meu show
terça-feira, 10 de março de 2009 | Opine aqui
Eu morri.
É estranho, mas é bom, é estranho porque é bom. É como estar em um show, quem se apresenta? A vida. Ela está lá, em cima do palco mas você não pode tocá-la, não pode chegar perto. E todos os mortos ficam só olhando, sem poder chegar algum dia parto do viver denovo.
Depois de amá-la e odiá-la e destruí-la por fim, queremos ela novamente, depois de tão mlatratada por nós. E cada um vê a vida como quer, como pensa ser, uns a vêem fraca e raquitica, ums vêem forte e rodusta. Feliz. Eu a vejo como eu, como cada um e como todos. Eu vejo a vida com inveja, por não poder chegar lá, chegar denovo nela. E amá-la e odiá-la e destruí-la, colocá-la na lama e arrasá-la. poder fazer tudo denovo. E faria, passo por passo. Nunca me arrependi de nada.
Nem de amar, amar demais.
E é amar demais que me tornou o que eu sou, mais um espectador morto, mórbido no show da vida, no dance, na boate, na noite, ela se espalha, cada dia num lugar, cada local por hora, e amando e sendo amada, e se exibindo, e sendo inveja. Essa é a vida, senhores.
Bem-vindos ao show.

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Roda viva
quarta-feira, 4 de março de 2009 | Opine aqui
Era uma vez velha, enrugada como um marcujá, estava cansada de tudo, estava cansada da vida. Não podia mais, nunca mais. Agora não mais.
Era como se tudo que tivesse para viver já tivesse vivido, como se ela, cansada, não merecesse mais viver, por ociosidade. por não ter nada a fazer.
Era como não viver, e não viver é chato, é longo, canstivo. Não viver é ruim. Mas morrer é melhor, morrer é lindo, morrer é o céu, literalmente. Assim pensava ela, que nada fazia além de praprar a própria comida, ler infindáveis livros que adiara na juventude e nunca sair de casa. Ficar lá dentro, sempre, sempre, morrendo lentamente, vivendo lentamente.
Os contos que escrevia falavam sobre o nada, o vazio, o diário, parara de escrever. Parara tudo. Parara a vida. As engrenagens da roda viva pararam degirar e ela foi esquecida pelo tempo, pela vida, pela morte. E um dia esperava morrer, esperava, enfim, viver esperava. Esperava. Esperava. Esparava o mundo voltara para ela os olhos, voltar-se para ela com compaixão e lhe ver. Esperava seu amor, esperava um filho, esparava alguém.
E esperarm cansa, e o texto cansa, e os contos cansam, e ela se cansou. De tudo e de todos. De nada. De casa. Da vida
E a morte veio e ela se foi, e o conto acabou e nada ficou.


Seja o que for
"Onde queres o ato, eu sou o espírito e onde queres ternura, eu sou tesão. Onde queres o livre, decassílabo e onde buscas o anjo, sou mulher. Onde queres prazer, sou o que dói e onde queres tortura, mansidão. Onde queres um lar, revolução e onde queres bandido, sou herói" Caetano

O blog
Para Jéssica,
porque "o que obviamente não presta
sempre me interessou".

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Soneto de Fidelidade

"De tudo ao meu amor serei atento
Antes, e com tal zelo, e sempre, e tanto
Que mesmo em face do maior encanto
Dele se encante mais meu pensamento.

Quero vivê-lo em cada vão momento
E em seu louvor hei de espalhar meu canto
E rir meu riso e derramar meu pranto
Ao seu pesar ou seu contentamento.

E assim, quando mais tarde me procure
Quem sabe a morte, angústia de quem vive
Quem sabe a solidão, fim de quem ama

Eu possa dizer do amor (que tive):
Que não seja imortal, posto que é chama
Mas que seja infinito enquanto dure."